Terça-feira, 20 de Novembro de 2007

O desastre nuclear como solução ambiental

  Paulo Casaca

[Estrasburgo, 15.11.07] Todo o fanatismo, ou mesmo apenas falta de rigor e isenção, corre frequentemente o risco de provocar o efeito contrário daquele que é pretendido, e o mesmo me parece estar agora a acontecer com o discurso do "aquecimento global".

Quando, creio que há já mais de um ano, vi o Presidente da Comissão Europeia fazer um inflamadíssimo discurso de alerta quanto ao aquecimento global, confesso que fiquei algo desconfiado, não só porque nunca tive oportunidade de ver idêntica preocupação por parte do anterior Primeiro-Ministro, como pela clara desproporção da preocupação em relação aos vasto conjunto de temas ambientais com que nos deveríamos preocupar.

Comecei então a tomar nota de que a energia nuclear se tornou cada vez mais presente nos discursos como a única solução realista para este grande flagelo do aquecimento global culminando mesmo com a recente aprovação pelo Parlamento Europeu de uma resolução (com o meu voto de vencido, naturalmente) onde se afirma que, e cito:

Constata que a energia nuclear constitui no momento presente a fonte de energia com emissões de CO2 mais baixas na Europa e salienta o papel que a energia nuclear poderá vir a desempenhar na luta contra as alterações climáticas.

E mais adiante:

Salienta que as decisões a curto e médio prazo relativas à utilização da energia nuclear afectarão também directamente os objectivos em matéria climática que a UE pode estabelecer com realismo.

Se a vida na terra, e mesmo a humanidade, já sobreviveu a muitas, profundas e repentinas mudanças climáticas, a experiência está por fazer quanto à proliferação de explosões nucleares acidentais ou provocadas.

E o problema que o discurso europeu coloca é o de ignorar que a fronteira entre os domínios civil e militares é cada vez mais ténue e o de fomentar o aparecimento em todo o mundo de Ahmadinejad's de pequena, média e grande dimensão virtualmente impossíveis de controlar.

Note-se também que se há coisa segura é a de que os stocks existentes na natureza de matéria-prima para combustão nuclear são ainda mais exíguos que os resíduos fósseis. Como podem eles nesta circunstância ser alternativa durável para combater o aquecimento global?

O mundo contemporâneo tornou-se prisioneiro das estratégias de marketing de choque, espécie de versão mediática da blitzkrieg. O que interessa é impressionar, por um determinado período mínimo de tempo, mesmo se à custa da verdade, do equilíbrio e do bom-senso. Uma das primeiras operações contemporâneas neste domínio resultou no presente desastre iraquiano. Onde nos conduzirá esta campanha pelo nuclear "ambiental"?

publicado por nx às 23:56
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