Quinta-feira, 24 de Janeiro de 2008

A contra-ofensiva de Teerão

Paulo Casaca

Um dos aspectos mais interessantes da guerra que se trava entre o Irão e os EUA é o de que os nossos analistas ocidentais estão sempre prontos a descobrir imensas fracturas ideológicas ou de interesses entre os vários membros da nomenclatura teocrática iraniana mas tendem a olhar para os EUA como um monólito, ignorando as evidências que nos dão uma imagem diferente.

De forma obviamente contraditória com todo o discurso e acção política do Presidente americano, um conjunto de americanos com posições importantes em vários departamentos governamentais editou um NIE – National Intelligence Estimate – sobre o programa nuclear iraniano que, para além de contestar o discurso de George Bush, contradizia o anterior documento análogo, editado dois anos antes, sobre o mesmo tema.

Documento inteiramente político, ele dedica-se a tentar demonstrar que o programa nuclear iraniano poderia afinal ter apenas intenções civis, longe de todas as intenções bélicas que anos a fio diplomatas, cientistas e funcionários dos EUA explicaram e garantiram que existiam. Por outras palavras, mais do que um documento contra o Presidente, trata-se de um documento que lança o descrédito sobre toda a política externa americana.

Apesar de tudo, e contra tudo, o Presidente George Bush, cuja credibilidade já não era grande em lado nenhum e menos ainda no mundo árabe, abalançou-se a uma ofensiva diplomática com um único objectivo: criar uma plataforma árabe de oposição ao expansionismo iraniano.

Como não é surpreendente para qualquer observador informado, o primeiro tiro de resposta que recebeu foi do país árabe que é hoje mais controlado por Teerão, ou seja, o Iraque. Aí, em artigo publicado na imprensa londrina, o porta-voz do Governo, Ali Al-Dabbagh, convidou o mundo árabe a construir uma aliança com o Irão contra os EUA.

A peregrina ideia de depor o antigo ditador iraquiano para entregar o país aos grupos terroristas iraquianos controlados por Teerão foi ainda mais inconcebível e de consequências mais desastrosas do que a de ignorar o programa nuclear iraniano, e a realidade continua a dar-nos provas desse facto todos os dias. Mais inconcebível ainda é que os EUA continuem a apoiar esse governo.

Em qualquer circunstância, a resposta de Teerão não se fez esperar, e não se fez só ouvir através dos seus representantes em Bagdade. Entre outras acções, o Governo iraniano despachou para o Parlamento Europeu o responsável pela negociação do seu programa nuclear e para Lisboa o Ministro dos Negócios Estrangeiros, convicto de que o "pragmatismo" levaria a nossa diplomacia a dissociar-se da posição tomada pelo grupo dos chamados 5 + 1 (Conselho de Segurança das Nações Unidas mais Alemanha) em função de alguns obscuros negócios de exploração de gás iraniano.

A contra-ofensiva diplomática de Teerão, até aqui, não resultou, mas nada assegura que não venha a resultar num futuro próximo.

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publicado por nx às 13:55
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