Quinta-feira, 29 de Maio de 2008

E depois de Beirute?

  Paulo Casaca

Em menos de 24 horas, as milícias pró-iranianas no Líbano tomaram conta do país, silenciando e devastando jornais e televisões afectas ao Governo, mantendo em prisão domiciliária os principais líderes do Governo e do Parlamento e destruindo as suas seguranças.

O golpe militar deu-se perante a total passividade das forças da UNIFIL – destacamento das Nações Unidas maioritariamente constituído por forças europeias – que não esboçou qualquer gesto para parar as deslocações das forças do Hizbullah do Sul do Líbano – onde a UNIFIL está presente – para a tomada de Beirute. De acordo com descrições de jornalistas da Televisão "O Futuro", identificada com Saad Hariri, líder dos árabes sunitas libaneses, os militares libaneses presenciaram sem esboçar qualquer gesto à destruição das instalações da televisão pelas milícias do Hizbullah.

Depois de organizar os mais variados bloqueios e greves sem conseguir derrubar o Governo, o Hizbullah resolveu assim, finalmente, usar directamente a força para impor a sua vontade.

A razão do golpe do Hizbullah foi a tentativa do Governo de finalmente governar, transferindo do seu posto o responsável pela segurança do aeroporto de Beirute, um destacado quadro do Hizbullah que transformou este aeroporto numa peça da logística do terrorismo no Líbano, crucial tanto para a importação de mísseis e outro material de guerra como para a livre entrada de Guardas Revolucionários Iranianos (Pasdaran, ou IRGC, no seu acrónimo inglês) e outros agentes do terrorismo internacional.

A imprensa ocidental denominou de "provocação" esta tímida tentativa libanesa de lutar contra o garrote terrorista do Hizbullah, numa réplica perfeita dos insultos que dirigiu em 1938 aos dirigentes checoslovacos que tentaram resistir ao garrote nazi.

O Hizbullah é a secção melhor armada, treinada e financiada dos Pasdaran, aquela que mais e mais mortíferos actos terroristas praticou na década de oitenta e provou a sua capacidade militar ao objectivamente ganhar a guerra que travou contra Israel, em 2006.

O Ocidente – e muito em particular a União Europeia – seguiu sempre uma política de apaziguamento em relação a esta temível secção internacional do terrorismo, nunca ousando catalogá-la como organização terrorista e cedendo sempre à sua vontade.

A instalação das forças europeias da UNIFIL no Líbano foi uma autêntica farsa e tornou inevitável a tomada de poder pelo Hizbullah no Líbano. Com medo dos actos terroristas do Hizbullah, a UNIFIL não só não o desarmou, como serviu de protecção militar à construção dos seus dispositivos militares no Sul do Líbano - que preparam a nova guerra  contra Israel - e ao seu treino e rearmamento, que necessita tanto contra Israel como para tomar conta do Líbano.

Perante o rápido esmagamento do Governo cujo homem forte era o líder parlamentar, Saad Hariri, que não esqueçamos, tem dupla nacionalidade libanesa e saudita e é obrigado a seguir as instruções de Ryaad, a Arábia Saudita resolveu negociar a derrota, que foi organizada no Qatar – Estado que está cada vez mais alinhado com Teerão, apesar da sua formal aliança com o Ocidente – dando o poder de facto ao Hizbullah, mas mantendo nominalmente os seus aliados à frente do Governo.

O acordo de Doha é mais do que uma derrota, é mais do que um recuo perante Teerão, é a consagração da ficção de que a paz se consegue com o apaziguamento perante o terrorismo.

Tal como nos tinha dito Churchill sobre Munique, os dirigentes ocidentais, colocados perante a escolha entre a guerra e a desonra, escolheram a desonra, e inevitavelmente vão ter a desonra e a guerra.

A declaração solene do Presidente do Parlamento Europeu de apoio extasiado ao acordo de Doha, acordo em que a Europa não foi tida nem achada e que é a consagração da vitória da razão da força sobre a força da razão, ficará para mim como o acto mais trágico que presenciei até hoje no Parlamento Europeu.

Ninguém duvide por um segundo que o expansionismo teocrático não irá parar em Beirute. A questão é só a de saber o que se vai seguir a Beirute.  

 

  

A violência terrorista do Hezbollah em fotos:

http://yalibnan.com/site/archives/2008/05/war_in_lebanon_1.php
http://yalibnan.com/site/archives/2008/05/war_in_lebanon_2.php
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http://yalibnan.com/site/archives/2008/05/war_in_lebanon_4.php
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publicado por nx às 10:47
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