Quinta-feira, 17 de Janeiro de 2008

"Yankee, go home... mas leva-me contigo!"

Esther Mucznik - Público, 2008.01.17
Investigadora em assuntos judaicos

O ódio aos Estados Unidos tem mais a ver com o que eles são do que com o que fazem

"Yankee, go home... mas leva-me contigo!"


Esta expressão do indiano Jairam Ramesh, citada por R. J. Lieber no seu livro A Era Americana, ilustra perfeitamente a ambivalência dos sentimentos que grande parte do mundo nutre pelos Estados Unidos da América. Odiamos o imenso poderio americano, culpamo-lo de todos os males do planeta, execramos a sua proverbial arrogância e brutalidade, a cultura de hambúrgueres e ketchup que invade as nossas mesas e, do alto do nosso cepticismo sofisticado e condescendente, escarnecemos do optimismo messiânico, da religiosidade primária, da estupidez de Bush, do patriotismo básico dos cowboys do lado de lá do Atlântico. Mas, paradoxalmente, não perdemos uma oportunidade para ir ou mandar os nossos filhos para as universidades americanas e vivemos os seus actos eleitorais com uma expectativa apocalíptica, como se o nosso próprio destino fosse selado por elas. Em suma, de uma forma ou de outra, acabamos por partilhar o "sonho americano".


E com razão, porque a verdade é que os EUA são, pelo menos por enquanto, uma potência com um poder inigualável do ponto de vista militar, económico, tecnológico e cultural. A sua tradição de liberdade individual e de igualdade de oportunidades, de fé na democracia representativa, de não-conformismo religioso e de idealismo, fez dos EUA um lugar único de oportunidade. Com apenas 4 por cento da população mundial, representam cerca de 40 por cento da despesa em investigação e desenvolvimento, possuem o maior número das melhores universidades do mundo e produzem a parte de leão dos prémios Nobel em Ciência, Medicina e Economia. É o seu imenso poder e sucesso, despertando ressentimentos e invejas, que está, em grande parte, na base do antiamericanismo global. Dito de outro modo, o ódio aos Estados Unidos tem mais a ver com o que eles são do que com o que fazem.

Vem isto a propósito das eleições presidenciais americanas e da imensa expectativa que as rodeia a nível internacional, cristalizando ódios e paixões desmesurados, sobretudo quando comparados com as possibilidades de transformação real que aquelas representam. Todos temos consciência do peso e da imensa influência da América no mundo. Mas será que o resultado destas eleições, seja ele qual for, mudará substancialmente o exercício do seu poder? As aspirações dos americanos parecem centrar-se na vontade de mudança. Será esse, na opinião da generalidade dos comentadores, o sentido do interesse despertado pelas campanhas do democrata Barack Obama e do republicano John Mac Cain: nenhum dos dois faz parte do que se pode considerar o establishment político.

Obama é, sem dúvida, aquele que inicialmente mais mudaria a imagem dos EUA no mundo: não só por ser negro, não só por ser jovem, mas por um estilo próprio que o distingue dos outros, nomeadamente de Hillary Clinton: menos ideológico, menos "politiqueiro", mais próximo das pessoas, com um discurso virado para o futuro que surge como uma lufada de ar fresco. Também o facto de ter uma origem parcialmente afro-asiática com o pai e o padrasto respectivamente do Quénia e da Indonésia, assim como ele próprio ter vivido na Indonésia e no Havai, permitem-lhe, na opinião do investigador Fareed Zacharia, uma melhor compreensão do mundo porque sabe "o que significa não ser americano".
Isto pode parecer estranho: afinal, tantos e tantos americanos, incluindo políticos, têm uma origem não-americana. Mas o mundo está a mudar rapidamente, com a emergência de países como a Índia, a China, a África do Sul ou o Brasil cada vez mais ricos, fortes e orgulhosos que também disputam o seu lugar ao sol, o que pressupõe uma visão mais abrangente da realidade mundial que tenha em conta as mudanças da relação de forças. Nada garante, no entanto, que a origem não-americana de Obama permita essa compreensão, nem que ela faça realmente a diferença, nomeadamente na política externa. O exemplo do Iraque é, neste aspecto, significativo: Obama promete retirar as tropas americanas em 16 meses e, tal como desde o início se manifestou contra a invasão do Iraque, pronunciou-se igualmente contra a nova política que, desde há um ano e sob a direcção do general David Petraeus, reforçou significativamente a presença americana no terreno - o que, aliás, sempre foi defendido desde o início pelo republicano John Mac Cain. Contrariamente a todos os prognósticos catastróficos, essa mudança de política funcionou e, não sendo provavelmente o único factor, contribuiu para estabilizar e reforçar a segurança no Iraque, permitindo um início de retirada em meados de Julho conforme já anunciado. Ou seja, nem sempre o discurso voluntarista tem uma eficácia prática. Em contrapartida, seria lamentável por parte de Obama deixar a sua campanha resvalar para a vitimização anti-racista - já iniciada a propósito de umas declarações inofensivas de H. Clinton - que só terá como consequência obscurecer o debate político.


A guerra no Iraque estimulou o debate sobre o poder da América e os seus limites e pôs em questão a Estratégia Nacional de Segurança definida pela administração Bush em 2002, que previa a possibilidade de uma acção militar preventiva e, se necessário, unilateral, contra Estados hostis e grupos terroristas, candidatos às armas de destruição maciça; previa também espalhar a democracia e os direitos humanos, em especial no mundo muçulmano. Esta estratégia de 2002, na prática alterada a partir de 2004, foi posta em causa pela realidade no terreno, mas é bom lembrar que ela tinha como fundamento os criminosos atentados de 2001 e a guerra do terror desencadeada pelos djihadistas islâmicos, assim como a impotência das instituições internacionais, nomeadamente das Nações Unidas, de lhe fazerem face. Esses fundamentos persistem e não é por Bush desaparecer de cena que essas ameaças também desaparecerão automaticamente. Muito pelo contrário, a persistência dessas realidades, a que se vieram juntar as criadas no terreno nos últimos anos, determina uma margem de manobra relativamente apertada a quem vier ocupar a Casa Branca. Seria bom reconhecê-lo, ao invés de prometer um céu que não está ao alcance, pelo menos, sem passar pelo purgatório.
publicado por nx às 11:07
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